Como os lobos se tornaram cães – a domesticação

Compartilhe agora mesmo:

Dando sequência à série de posts com resumo do livro CãoSenso, de John Bradshaw, agora vamos tratar de entender como os cães se tornaram cães, como se deu a domesticação.

Esse entendimento é fundamental para entender como os cães se comportam, sentem, aprendem e como se relacionam socialmente.

“O processo de domesticação fez com que se perdessem muitas particularidades da espécie dos antepassados, mas, mesmo assim, os cães conservam algumas das características daquela linhagem mais antiga que deu origem igualmente ao cão, ao chacal, ao coiote e ao lobo. Os cães são de alguma maneira, parecidos com cada um desses outros, mas também são singulares: foram os únicos canídeos totalmente domesticados.”

Se você está confuso sobre de onde vieram os cães, recomendo fortemente que leia esse post referente ao resumo do primeiro capítulo do livro.

No final do século passado, através de tecnologia de sequenciamento genético, foi possível intensificar o estudo sobre onde e quando o cão deixou de ser lobo e passou a ser cão. É tudo bastante recente e novas informações podem surgir, como em toda ciência.

“(…) a evidência tem sido suficientemente clara para determinar a separação entre o lobo e o cão em um momento bem anterior ao processo evolutivo, há milhares de anos, conferindo assim mais tempo para que o lobo e o cão se distinguissem (…).”

Mais uma evidência de que considerar que o comportamento dos lobos é parâmetro para entendermos o comportamento dos cães é uma grande estupidez!

“Entender que o processo evolutivo que levou à domesticação dos cães se deu durante muito tempo e simultaneamente à nossa própria evolução social, desde os caçadores-coletores que começaram a se agrupar para cooperação e sobrevivência, até a manipulação das mais variadas raças como conhecemos hoje é entender que nossas espécies evoluíram juntas e, “em essência, eles se domesticaram tanto como nós os domesticamos”.

Através de datação de carbono, há uns 20 anos, os vestígios mais antigos de cães encontrados pelos arqueólogos eram de algo entre 12 mil e 14 mil anos, no máximo, o que é bem antes da agricultura ser desenvolvida. Isso faz com as informações sejam escassas e vastas as especulações sobre quando e onde aconteceu, efetivamente, a domesticação do cão. Mesmo através de analise do DNA, o momento exato em que houve a domesticação ainda não pôde ser determinado pois exitem diferentes tipos de DNA e estes, por sua vez, podem dar diferentes respostas, respectivamente (por exemplo, o DNA nuclear e o mitocondrial – machos e fêmeas passam informações genéticas diferentes através dos diferentes tipos de DNA, para seus descendentes).

“Contando o número de diferenças entre os DNAmt de dois indivíduos da espécie, os cientistas podem estimar a quantidade de tempo em que as linhagens dos dois indivíduos vêm divergindo e, assim, podem ter uma idéia de há quanto tempo viveu sua antepassada fêmea compartilhada mais recente. Quanto maior o número de mutações distintas, mais antiga deve ser a linhagem comum dos dois animais.”

Assim, apesar da regularidade dessas mutações variar de um animal para outro, pela datação por carbono, os cientistas sabem que o lobo antepassado do cão “desviou-se” do coiote cerca de há 1 milhão de anos.

“Uma simples comparação entre o número de diferenças entre o cão e o lobo e entre o lobo e o coiote sugere que o cão e o lobo estiveram separados por aproximadamente (…) 100 mil anos.”

Porém, segundo Bradshaw, esse método comparativo tem superestimado esse tempo decorrido e acredita-se que por causa da própria domesticação e dos níveis cronicamente altos de hormônios do estresse presentes no indivíduo (exatamente pela domesticação – restrição do espaço e proximidade com o homem) a taxa de mutação deve ser mais rápida após a domesticação do que durante a vida selvagem, “acelerando-se na razão em que o DNAmt muda, de uma vez a cada poucos milhares de anos para uma vez a cada poucas centenas.” Assim, numa perspectiva mais realista, o intervalo de tempo decorrido desde a domesticação dos cães até hoje, estaria em torno de aproximadamente 20 mil anos.

Cruzando as informações das análises de DNA de lobos e diferentes tipos de cães, bem como, análises de DNA do sistema imunológico de cães temos uma estimativa de centenas de milhares de anos da domesticação, o que seria inviável já que antecederia à evolução da nossa própria espécie. Então, poderíamos supor que a domesticação pudesse ter ocorrido em diversos lugares do mundo, ao mesmo tempo.

“Agora já se pode examinar o DNA de dentes de cães fossilizados, encontrados em sítios de sepultamentos neolíticos. Embora apenas poucas dúzias de indivíduos tenham sido sequenciadas até agora, os resultados tendem a confirmar que, de fato, os lobos foram domesticados em vários lugares diferentes, possivelmente em muitos.”

Então, segundo avanços científicos recentes, temos que a diversidade do genoma do cão moderno não é tão incompatível com o que a arqueologia nos traz. Ainda assim, existe uma divergência entre “a data mais provável sugerida pelo DNA (20 mil anos atrás ou mais) e a data mais antiga com que concorda a maior parte dos arqueólogos (14 mil anos)”.

Essa diferença de 5 a 10 mil anos, aproximadamente, se dá pelo tipo de evidência científica que os arqueólogos aceitam. Mesmo havendo ossos de lobos enterrados juntos com homens há meio milhão de anos, eles não consideram esses sepultamentos como prova de domesticação pois esses animais não se diferenciam dos lobos.

“(…) o primeiro exemplo arqueológico bem estabelecido de um cachorro que tanto é biologicamente distinto dos lobos como conectado de forma específica aos seres humanos é o túmulo, datado de 12 mil anos e situado onde agora é o norte de Israel, de um ser humano com uma das mãos apoiada no corpo de um filhote(….)”

Entretanto, não podemos nos basear que a domesticação se deu nessa data sem entender que para o humano estar com esse tipo de afeição pelo cão – bem como as características físicas do animal serem diferentes das do lobo (dentes menores, por exemplo) o processo de domesticação já teria ocorrido, há mais tempo para que fisicamente o animal tivesse características menos selvagens e os laços afetivos fossem criados.

Desde essa data, os arqueólogos foram encontrando novos sepultamentos de cães com humanos, bem como de cães sozinhos, o que caracteriza afeição por eles.

A partir desse registro, os cientistas observaram uma aparição de cães relativamente rápida em todo o mundo. O que pode se explicar por processos de domesticação independentes e simultâneos. Vários cães foram acompanhando uma das primeiras levas de colonizadores. Mas, a verdade é que o momento em que esses cães se distinguiram dos lobos fisicamente, segundo as evidências arqueológicas) pode ser a conclusão do processo de domesticação que, provavelmente, começou bem antes. Esse intervalo, pode ser uma explicação sobre o que mostra a análise do DNA e a evidências arqueológicas.

Em sítios arqueológicos, ao redor do mundo, sempre se observou que os homens tinha vínculos com animais e estes eram enterrados junto aos humanos mas, antes de 14 mil anos (primeiro sepultamento de cães conhecido) como não há registros, pode significar que os cães não eram comuns, assim como os próprios lobos.

“Diferentemente dos túmulos de cães, que como observamos, tornaram-se bastante comuns depois que apareceram pela primeira vez no registro arqueológico, os túmulos de lobos – tanto sós como acompanhados de seres humanos – parecem ter sido extremamente raros em toda a antiga história da humanidade.”

Há registro de protocães, e um terceiro tipo de cão que se diferencia fisicamente de lobos mas, não o suficiente para serem identificados como cães, pelos arqueólogos. O que poderia explicar essa lacuna temporal já que, temos certeza que lobos não eram comumente enterrados com humanos de maneira a demonstrar afeição e, de repente, começaram a surgir registro desse tipo de hábito, 14 mil anos atrás. Obviamente, a domesticação não se deu num passe de mágica, da noite para o dia, na história da evolução. Ela aconteceu ao longo de muito tempo e pode até ser que tenha se dado acidentalmente, quando por algum motivo pouco claro, alguma mudança nos cérebros dos lobos (de alguns deles) os tornaram aptos a conviver com humanos. Essa capacidade social pode ter sido potencializada a ponto de alguns protocães acompanharem os homens em suas viagens e, eventualmente, reproduzirem com outros protocães em lugares diferentes e com características diferentes, o que pode explicar a semalhança de DNA’s de indivíduos em regiões distintas. Assim como a própria característica migratória dos lobos. Claro, essa similaridade colabora para a dificuldade em precisar onde se deu, efetivamente, a domesticação.

“(…) esse processo deve ter sido repetido várias vezes, em vários lugares da Europa e da Ásia, por um período de muitos milhares de anos, até o ponto em que os cães domésticos já se tivessem firmado em alguns cantos do mundo, ao mesmo tempo que os lobos iam sendo arrancados da vida selvagem alhures. Algumas dessas tentativas deram certo. Outras decerto fracassaram, sem deixar traços nos cães de hoje. O hábito de sepultar cães junto com humanos, por alguma razão que ainda não está clara, parece haver sido adotado somente depois que a domesticação já estava bem avançada, senão teriam sido encontrados túmulos humanos, datados de entre 25 mil e 15 mil anos atrás, com ossos de protocães, indistinguíveis dos ossos de lobos.”

Várias são as linhas de pesquisa, principalmente falando de DNA mas, o que é mais plausível é que não houve um único local de origem da domesticação e que ela se deu simultaneamente, em diversas partes da Ásia e da Europa, entre erros e acertos, prosperidade e extinção… alguns foram sendo selecionados, biologicamente selecionados, a proximidade com os humanos, cada vez maior, fez com que eles migrassem com estes, através das várias colonizações historicamente.

“Cães são o resultado de ma mistura de muitos tipos diferentes de lobos da Ásia e da Europa. O único lobo que definitivamente não é ingrediente da receita é o lobo americano do leste. Assim, não há nenhum lobo vivo que possa servir como modelo perfeito para a compreensão dos cães e do modo como estes se comportam.”

O que é possível que tenha acontecido é que, ao longo da nossa própria evolução,enquanto caçadores-coletores, lobos foram se aproximando de nós por ser conveniente para eles. Percebemos a conveniência que essa proximidade trazia para nós e os mais capazes de tolerar a proximidade conosco foram ficando e, ao se reproduzirem, geravam descendentes cada vez mais tolerantes. Eram os “lobos de aldeia” e fisicamente eram tão iguais aos lobos selvagens que registros arqueológicos não os identificam como parte do processo da domesticação do cão.

“(…)tenho a firme convicção de que os pioneiros do longo caminho percorrido até os cães de hoje foram lobos, que passaram a explorar um novo nicho, uma nova concentração de comida proporcionada pelo homem, quando os seres humanos começaram a viver em aldeias em vez de estarem constantemente em movimento. Esses lobos, então, evoluíram para adaptar-se ao nosso novo estilo de vida, o que terá exigido deles aptidões muito diferentes das que eram necessárias para caçar em campo aberto.”

Mas, o homem também deve ter tido a sua parte de contribuição nesse processo de domesticação. Apesar dos lobos não serem carnívoros estritos – ou seja, sobrevivem também consumindo vegetais, além de carne – se aproximarem para revirar o lixo e comer as sobras das comunidades de aldeia não parece suficiente para manter um lobo nas proximidades. Os lobos selvagens da época eram bem maiores que os de hoje e nós produzíamos bem menos lixo que produzimos hoje. Logo, é possível que além de tolerar a presença desse predador, nós o tenhamos alimentado, deliberadamente, premeditamente.

Além de ser um hábito humano bastante antigo (mesmo pré agricultura) ter animais de estimação, ter um predador do porte de um lobo para cuidar do território pode ser bem vantajoso! Mas, esses animais de estimação, até então, eram tirados da natureza enquanto filhotes, poderiam permanecer durante suas vidas com os humanos mas, não reproduziam. Logo, novos “exemplares” eram trazidos selvagens, novamente. O lobo, por sua vez, foi capaz de reproduzir-se, nesse contexto e os seus descendentes traziam esse “gene de tolerância social”.

Bradshaw até considera uma hipótese em que tenha havido algum acidente genético – “algum tipo de mutação” – que tenha conferido a alguns lobos a capacidade de socializar entre eles e conosco, simultaneamente, compartilhando “seu comportamento social (…), enquanto suas preferências sexuais permaneciam voltadas para sua própria espécie”. Essa mutação, até o aparecimento das sociedades de coletores-caçadores, nos locais específicos onde haviam lobos selvagens, não era demonstrada por motivos óbvios. E, oportunamente, quando essa proximidade aconteceu, “esses lobos das proximidades, com mecanismos de socialização alterado, estavam pré-adaptados para a coexistência com a humanidade”.

Nesse momento do livro, o autor sugere que ao invés de entendermos que a capacidade de socializar dos nossos cães é em decorrência da domesticação, ele levanta uma hipótese bastante possível de que a domesticação só ocorreu devido a essa capacidade pré-existente, em alguns dos lobos selvagens daquela época.

Então, o que difere lobos de cães não pode ser definido por seu DNA ou por sua forma. O que difere nossos cães dos lobos é o seu comportamento. Principalmente, a maneira como se comportam conosco. Obviamente, alterações físicas em decorrência de adaptação às novas demandas do lobo, ao longo de todo processo evolutivo que culminou na domesticação do cão foram acontecendo, gradativamente.

Assim, os lobos contemporâneos dos nossos cães domésticos não podem ser referência para avaliar comportamento dos últimos. Os lobos atuais, não descedem do mesmo lobo que descendeu o nosso cão. Os lobos daquela época permaneceram lobos e somente os “adaptados” chegaram de fato a ser domesticados. Os lobos atuais, foram “adaptados” geneticamente para nos temer, tendo em vista que os caçamos e a seleção natural garante que os mais desconfiados permanecessem vivos por mais tempo, reproduzindo e gerando descendentes.

Desde 1950, cientistas russos vem estudando a raposa prateada, uma variedade de cor da raposa vermelha selvagem que é criada em fazendas de peles. Comumente mantidas em gaiolas, pouco domadas e não domesticadas. Esses cientistas, começaram a selecionar somente as mais mansas de cada geração. As aproximações foram graduais e controladas, passando do desconforto em serem tocada à busca ativa por interação com pessoas. Isso após 35 gerações do experimento. Com isso, observou-se níveis de hormônios do estresse quatro vezes menores que o das mesmas raposas não domesticadas.

“Uma redução similar na reatividade e na suscetibilidade ao estresse é evidente quando os cães são comparados com lobos – uma redução que pode ser rastreada até a mudança no hipotálamo, a parte do cérebro que, entre várias funções, se preocupa com a reatividade emocional. Tais mudanças são, provavelmente, uma consequência direta da seleção pela mansidão, de modo que, nesse sentido, as raposas de fazenda domadas podem muito bem ser similares aos lobos que se adaptaram a viver perto dos assentamentos humanos e a ali buscar alimento”.

O mais interessante de tudo isso é que percebeu-se que as raposas tornaram-se mais fáceis de serem domadas “porque o período que precede o momento em que os animais ficam com medo de novas experiências foi bastante dilatado. Naquele momento em que os jovens mamíferos tem os cuidados dos pais, momento em que eles não reconhecem perigo e têm bastante curiosidade e coragem e que conhecemos com “a janela de socialização”, onde tudo que for apresentado ao animal de maneira positiva, nessa fase, terá melhor correlação no futuro. Quando ela se fecha, os filhotes se tornam mais desconfiados e inseguros. Nessas raposas, percebeu-se um aumento de 3 semanas nessa janela. O que nos traz ainda uma hipótese de que os filhotes das lobas mansas que procriavam nas proximidades dos homens, passavam essa período de socialização já na presença dos homens e mulheres da época.

Apesar do sucesso desse experimento, uma questão é importante ressaltar que diz respeito ao fato dos cães terem a capacidade de criar vínculos conosco, sem perder os vínculos com outros cães. As raposas prateadas mansas, ao criarem o vínculo com o humano, isolaram-se dos seus iguais.

“A mansidão permite a substituição de um conjunto de respostas sociais – destinadas a seres da mesma espécie – por outro – dirigido a seres humanos.”

Assim sendo, o experimento nos mostra que a mansidão pode ser selecionada relativamente rápido mas, não esclarece sobre essa capacidade que os cães têm de criar vínculos com ambas as espécies. Outra questão relevante diz respeito aos comportamentos parecidos com os cães que as raposas mansas começaram a apresentar: como abanar rabo, lamber o rosto e mãos de humanos, por exemplo. Isso demonstra que a ideia de que o repertório comportamental do cão vem exclusivamente do lobo é equivocada.

A fisiologia que fundamenta as diferenças na aparência dos canídeos começa a ser entedida.

“Grande parte da variação de tamanho, nos cães de hoje, resulta decerto de mudanças nos estágios de crescimento durante os quais esses hormônios são produzidos, de quanto deles é produzido e de quão eficazes são ao cumprirem sua função.”

Isso quer dizer que as formas dos cães, como as conhecemos hoje, são definidas por um fenômeno onde o crescimento de umas partes continua e de outras cessa. Se em um cão, o seu esqueleto para o crescimento mas, os órgãos continuam a amadurecer, ele será um cão menor que o comum. (Imagine uma menina que entra na puberdade muito cedo e menstrua, logo ela para de crescer, não é mesmo? Tudo regulado por hormônios!). Os cães tornam-se sexualmente maduros um pouco antes que lobos.

Dessa forma, o cão tem sido comparado a um lobo que não cresceu. Cães brincam ao longo de toda sua vida ao passo que lobos, não. Quando falamos anteriormente sobre a janela de socialização ter sido expandida, nas raposas, isso pode ter acontecido também com os lobos e, portanto, “terem contado com um período mais demorado de aprendizagem social no começo de suas vidas, de tal modo que a tolerância ao contato humano teve tempo de se desenvolver”.

” Os cães por sua parte, são como lobos domáveis nos quais o desenvolvimento do comportamento foi ainda mais demorado, a ponto de deter-se no que seria o estágio juvenil do lobo, em que a conduta é mais flexível e pode dessa forma ser adaptada com muito mais facilidade às demandas dos seres humanos.”

No início do processo de domesticação, os homens pouco devem ter interferido exceto pela tolerância a apenas os lobos mais mansos. O que, certamente, com a mansidão e proximidade cada vez maiores, culminou num “progresso hesitante no sentido de se transformarem em um animal que tivesse muitas das características comportamentais dos cães de hoje, mesmo que ainda parecesse muito com um lobo.”

Fisicamente, no entanto, as mudanças devem ter começado após um tempo já de maior confiança em que estes animais já dependiam do fornecimento de alimento pelos homens, o que em menor quantidade disponível deve ter diminuído o tamanho dos corpos e pela migração que por si só, garante a adaptação da pelagem, por exemplo.

“Muitas das configurações que vemos nos cães de hoje também são antigas. Há 10 mil anos, a utilização de cães – e, portanto, eles próprios – havia se espalhado pela maior parte da Europa, da Ásia, da África e das Américas; logo depois disso, e em muitas partes do mundo, apareceram tipos reconhecidamente distintos de cães. Nos 2 mil anos segintes, esses tipos se diversificaram com rapidez (…) há 5 mil anos, já havia cães para vários propósitos. (…) Os cães de colo, similares ao cão maltês de hoje, foram registrados pela primeira vez em Roma há mais de 2 mil anos.(…)”

Procriações planejadas, provavelmente, já ocorriam há 5 mil anos. Porém, o que manteve a diversidade da população canina é o mesmo que hoje: acasalamentos por preferências dos próprios cães, não planejados. Isso aliado a migrações por todo os continentes, acompanhando os humanos, somados à seleção natural que excluía os mais fracos, garantiram um nível saudável de variação genética.

“Embora a maior parte dos cães seja valorizada hoje em dia primariamente por seu companheirismo, pelo menos no Ocidente, também devemos lembrar que, em termos históricos, muitos cães eram criados sobretudo porque eram úteis.”

Assim sendo, o cruzamento seletivo deliberado – planejado e intencional – fecha as 3 fases da transição do lobo para o cão. A primeira foi a seleção pela mansidão – onde os lobos foram tolerando, cada vez mais, a proximidade dos homens; A segunda fase caracteriza-se pela seleção das funções que os cães executariam.

“No decorrer dessa mudança, o cão perdeu muitos de seus atributos parecidos com os do lobo, tanto que não há razão para presumir que as características que definem os cães de hoje derivaram especificamente dos lobos. Essas características, em sua maior parte, são produto da domesticação ou aspectos comuns a todos os canídeos, que antecedem, no tempo, a evolução do lobo cinzento.”

Como vimos ao longo desse resumo, lobos e cães têm bastante coisas em comum mas, o que os define são exatamente as diferenças. Cães demoram mais para se desenvolver e permaneceram, ao longo de suas vidas, com o mesmo potencial de desenvolvimento de um lobo jovem, não adulto. O que os fará dependentes de nós, para tudo em suas vidas. Apesar de serem capazes de se reproduzir, mais cedo que os lobos.

Os cães de todas as raças distintas são tanto cães uns quanto os outros. Portanto, se reconhecem como tal e é bem provável que tenham retido algum repertório social comum o que os capacita a se comunicarem, entre si.

Bradshaw termina o capítulo com o seguinte questionamento:

“(…) até que ponto as aptidões sociais do cão são um produto da domesticação e o que foi herdado diretamente do lobo – ou possivelmente de ainda antes na história evolutiva dos canídeos?”


Esse foi o segundo post com o resumo do segundo capítulo do livro CãoSenso. Espero que tenha conseguido deixar mais leve e acessível essas informações e que você possa me ajudar a disseminá-la para que cada vez mais entendamos que nossos cães não são lobos e quão singular é sua capacidade de conosco interagir.

Fonte: Cão Senso. Bradshaw, John. 2011; Tradução: José Gradel; Rrevisão Técnica: Tomás Szpigel;

Compartilhe agora mesmo:

Deixe seu e-mail aqui pra receber as novidades da Tutor de Pet!

Tutor, fique tranquilo: somos contra spam!

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

Seja o primeiro a comentar!