Eu já senti vergonha do meu cachorro

Na semana passada, estava passeando com o Aramis e, de repente, percebi que eu estava me sentindo extremamente orgulhosa em desfilar com ele todo reboloso e bem comportado. Mas, não foi sempre assim. Eu já senti vergonha do meu cachorro e não me orgulho disso!

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Na semana passada, estava passeando com o Aramis e, de repente, percebi que eu estava me sentindo extremamente orgulhosa em desfilar com ele todo reboloso e bem comportado. Mas, não foi sempre assim. Eu já senti vergonha do meu cachorro e não me orgulho disso!

Aramis e eu

Costumeiramente, como sendo o que melhor se adaptou ao nosso estilo de vida e às necessidades individuais do Aramis, principalmente, pela sua reativiadade a outros cães, soltos ou em guias, definimos como nosso horário de passeio o período compreendido entre 6:00h e 7:30h, da manhã.

Se você tem esse hábito, por favor, com muito carinho, te convido a repensar!

Depois disso, o meu bairro é inundado por cães soltos que acompanham trabalhadores ou mesmo de moradores que abrem os portões para que seus cães “dêem uma voltinha”.

Há, ainda, os que insistem em passear com seus cães sem as respectivas guias. Não tenho outra maneira de falar sobre essas questões sem que seja enfática em dizer que é uma tremenda falta de educação e respeito ao espaço do outro. A rua, como via pública que é, não deve ser um espaço que um cão, tendo um tutor, tem acesso irrestrito e ilimitado.

Pessoas e outros cães podem não querer ou não gostar de interagir com os cães soltos. Nunca é demais lembrar que um dos princípios da boa convivência é o respeito aos direitos alheios: “O seu espaço termina onde começa o meu” e vice-versa.

Enfim, eu sei que o número de cães soltos nas ruas, após as 7:30h da manhã, é em virtude desses motivos que citei porque antes desse horário, simplesmente, não tem nenhum cão nas ruas. Absolutamente nenhum! E já transitei pelos horários o suficiente para ver tutores abrindo seus portões, trabalhadores chegando ao bairro para prestação de serviços, principalmente na construção civil, acompanhados por seus cães. Bem como, tutores que carregam orgulhosamente as guias de seus cães nos braços, enquanto seus cães desfilam soltos pela rua.

Isso é errado pelo fato de invadir o espaço do outro mas, também, porque um cão pode não reagir bem a um estímulo específico e representar um risco tanto para terceiros quanto para si mesmo, podendo ser atropelado ou provocar um acidente entre veículos que freiam bruscamente para impedir o atropelamento. E mais um bocado de situações hipotéticas que eu poderia descrever mas, vou me controlar! Por favor, se você me acompanha por aqui e tem uma dessas práticas, seria fantástico você rever essa postura!

Antecipe-se, sempre que possível… quase sempre é possível!

Então, voltando ao motivo que me fez sentir vergonha do meu cachorro é que, há uns dias, em virtude de uma situação que nos impediu de passear pela manhã, resolvi fazer o passeio à noite. E Aramis não se comportou como eu gostaria. O que não foi culpa dele porque, além dele já ter um acúmulo de cortisol além do normal por não ter passeado de manhã, ainda optei por fazer um trajeto um pouquinho diferente.

Eu sempre recomendo para meus clientes de consultorias que, o passeio deve ser previsível ao máximo, para humanos e cães, principalmente se o cão em questão está começando a conhecer o mundo ou se tem algum grau de reatividade.

Um passeio previsível deve ter o objetivo de minimizar as chances de expor o cão a situações que podem ser uma experiência negativa para ele, para você e/ou para terceiros. Então, saber se no trajeto tem algum estímulo que pode não ser bem percebido pelo cão é fundamental.

Quando passeamos com frequência num mesmo local, começamos a reconhecer as rotinas daquele local. Como os horários e costumes de seus moradores, por exemplo. E isso facilita muito a vida de um tutor com seu cão, reativo ou não!

Porque a reatividade pode, inclusive surgir da super exposição de um cão não reativo a um estímulo constantemente incômodo. Então, cuidar do espaço do cão para que ele não venha a desenvolver reatividade aos mais diversos estímulos é nossa obrigação, ao passear com nossos cães.

E acredite, é bem mais fácil prevenir esse problema do que tratá-lo!

Quando a cabeça esquenta? O melhor é entender o que te motiva!

Então, seguimos um trajeto que nos levou à lagoa. Já era mais tarde da noite, então, não haviam muitos cães passeando e os que haviam, a princípio estavam presos às guias.

Quando menos percebi, um tutor paquerando no telefone, passeando com seu cachorro, o soltou a menos de dez metros de nós e ele vinha na nossa direção. Aramis estava fazendo cocô. Eu comecei a gritar para o tutor chamar seu cachorro para si mas, ele estava muito ocupado para me ouvir.

Então, da melhor nameira que eu pude, dadas as devidas circunstâncias, eu apressei meu cachorro para a conclusão de sua obra! E nesse meio tempo, ele viu o outro cão que, realmente, não estava demonstrando interesse por nós mas, o Aramis já estava, como num estalo equivalente a uma viradinha de chave, no seu cérebro, numa posição de enfrentamento – aquela que um buldogue sabe fazer melhor do que ninguém, mesmo quando é só ansiedade… de cabeça erguida e peito estufado, sabe?

E aí, eu sabia que chamar sua atenção para mim não resolveria. Mas, ainda assim tentei! Eu sabia que nada do que eu fizesse, tiraria o foco dele na ameaça que ele via. Então, minha opção, nesse momento, foi arrastá-lo pela guia, numa distância que fosse suficiente para ele se sentir menos ameaçado e me perceber, novamente – apesar que quando isso acontece, o resto do passeio é com ele hipervigilante.

Nesse momento, eu senti meu rosto queimar e numa fração de segundo pude experimentar uma sensação de raiva que rapidamente reconheci e descartei. (Acho que é o que tutores que ainda não descobriram como lidar com seus cães sentem e por isso, acabam sendo, muitas vezes, agressivos com eles, usando punições!)

Ter consciência do que estava sentindo foi fundamental para ter controle das minhas ações, na sequência. Imediatamente, com o rosto ainda queimando, senti uma vergonha danada do meu cachorro! E, nos direcionamos para casa, porque, claramente, para mim, o passeio já tinha acabado.

Que vergonha!

Eu senti vergonha por ele não ter me dado atenção. E cheguei em casa e tentei refletir sobre o que aconteceu e, principalmente, sobre o que eu senti. Sem sombra de dúvidas, foi vergonha!

Mas, nessa reflexão mais esmiuçada, tentando colocar a situação em perspectiva o máximo que conseguisse, eu cheguei à conclusão de que a vergonha que senti não era direcionada à ele. Era de mim mesma!

Por trabalhar com cães, acabei criando a falsa percepção de que não poderia ter um cão que não respondia às minhas chamadas, na frente dos outros.

Naquele momento, eu me envergonhei porque não tinha o controle da situação. Mas, o que eu consegui ponderar, depois, já em casa, é que eu perdi o pouco controle que poderia querer, muito antes da reação negativa dele acontecer.

Novos trajetos são muito bem-vindos para cães explorarem e serem expostos a novos estímulos. Mas, eu não me antecipei o suficiente para cuidar do espaço de conforto do Aramis. Eu confiei que o tutor do outro cão respeitaria um espaço que ele nem deve saber que existe, para o seu próprio cão. Eu expus o Aramis à uma experiência negativa. Mais uma para a conta!

Infelizmente não teremos controle sempre! E está tudo certo! Principalmente, se pensarmos que estamos lidando com vidas! Nossos cães são seres únicos. Indivíduos dotados de emoções e de uma história própria de vida e experiências que só eles, realmente, têm a perspectiva do que vivenciaram e de como se sentem em relação aos mais diversos estímulos.

Às vezes, um contexto específico pode implicar o odor de uma fêmea no cio ou qualquer outra variável à qual não temos acesso, porque somos espécies diferentes. E isso ser um fator preponderante numa tomada de decisão,d o nosso cachorro, entre que comportamento apresentar diante de um dado estímulo. E Tudo bem!

Senti vergonha de pensar que senti vergonha dele. Justo dele a quem devo boa parte do ser humano incrível e em franca evolução que sou, hoje. Os nossos cães precisam ser aceitos e amados por nós, independente dos seus comportamentos. Afinal, não é isso amor, por si só! Aceitar o outro como ele é? Não podemos amar algo que queremos mudar!

Principalmente, porque comportamento de cachorro é diferente de comportamento humano (e isso pode ser constrangedor, se o seu cão gosta de lamber xixi do coleguinha, por exemplo, se você não souber que para ele isso é normal e a maior onda!). E, também, porque comportamentos anormais nos indicam que algo não está bem com eles. Que precisam da nossa ajuda!

O antídoto: o orgulho!

No dia seguinte, fizemos um passeio pela manhã, maravilhoso! Sem nenhuma intercorrência e com muita comunicação entre nós! E voltei a perceber o que eu sentia, naquele momento, e me dei conta de que me sentia bastante orgulhosa.

Desfilava super confiante e orgulhosa, exibindo meu buldogão rebolando pelas ruas do bairro, de peitoral rosa e guia frouxa… ele esperando pacientemente, sob o comando “espera”, para atravessarmos as ruas, quase me faz explodir de alegria por termos esse nível de comunicação.

E, claro, me orgulhei de mim mesma! De tudo o que superamos juntos mas, principalmente, do quanto superei a mim mesma por não desistir de melhorar a vida do Aramis a cada vergonha que eu sentia.

Por entender que a minha obrigação com ele vai muito além do que os outros podem pensar de nós mas, do que efetivamente eu posso ajudá-lo a desenvolver enquanto ser único e maravilhoso que é! E que para isso preciso me desenvolver, na mesma medida! Não é fantástico?

Cada vez que, lá no nosso começo, eu me envergonhei pelas reações humanamente incovenientes dele, eu me esforcei para tentar entender o que ele sentia e como eu poderia ajudá-lo, fosse cuidando para que o ambiente fosse minimamente controlado (através de gestão e manejo do ambiente), fosse estreitando nosso vínculo, lá dentro de casa, para que nos comunicássemos na rua (uma comunicação assertiva e neurocompatível para ele).

Acredite-me, foi muita superação para não me importar tanto, com o julgamento alheio, ao menos não ao ponto disso me paralisar! E eu só consegui me superar tanto porque eu consegui, a cada vez que eu senti vergonha do meu cachorro, internalizar e reconhecer meus próprios sentimentos.

Quantos de nós já deixamos de ir à academia treinar porque estamos fora de forma? Quanto de nós já deixamos de sair com nossos cães para passear porque temos vergonha dele não saber se comportar?

Reconhecer que a vergonha não era dele mas, sim de mim mesma e trabalhar na direção de melhorar o que foi/é possível para afinar nossa comunicação e prever situações estressantes que podem surgir pelo caminho: eis a maneira que decidi usar a vergonha a meu favor, como força propulsora de um movimento lindo, evoluindo, lado a lado com ele!

Seu cachorro já te ajudou a superar a si mesmo? Quer me contar? Vou adorar saber sua história, quem sabe não posso contá-la aqui e ajudar mais pessoas a entenderem seus próprios sentimentos?

Gratidão!

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