Homenagem Póstuma – Bolota Dóris

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A conheci numa véspera de Natal. Íamos para uma pousada e passamos para conhecê-la, no local onde nascera.

Quando os portões se abriram, logo a avistei mas, nunca poderia, naquele momento, imaginar o quanto seria capaz de amá-la!

Veio logo em minha direção. Um pacotinho branco com manchinhas marrons, rebolando tanto que parecia que deslocaria o quadril. Tinha um cheirinho diferente: não era ruim…também não era perfumoso…era um cheirinho que, só anos mais tarde, fui saber que não era só seu.

Agarrei-a num abraço forte e  totalmente humano! Ela se aquietou e demonstrou que estava tão confortável quanto eu, naquele abraço de mãe e filha…nosso primeiro, de muitos!

A partir daí, se iniciaram dias de longa espera. Não poderia levá-la comigo, de imediato. Havia medidas legais e financeiras que precisavam ser providenciadas, além do feriado de

Natal que já seria no dia seguinte. Foram dias de muita ansiedade! Meu Deus, como ansiei por aquele abraço, novamente!

Enfim, chegou o dia que iríamos buscá-la, definitivamente, pra vir morar conosco, fazer parte da nossa família. Se passou uma semana inteira e lá estávamos nós para, finalmente, reencontrá-la e nunca mais nos separarmos. Como ela cresceu! Bulldogues crescem (engordam) muito rápido. Sim! Minha filha Dóris, uma Bulldogue Inglês linda e adorável! Cheia de dobrinhas, macia e deliciosamente rebolante! Ah! Lembra do cheirinho? Então, é característico de bebês bulldogues. Só quem teve um, vai me entender!

Chegamos em casa e era tudo novidade pra todos nós. Já tínhamos uma outra filha não humana, a Martha, uma Labrador Retriever (daria um livro…mas, quem já leu/assistiu “Marley e Eu” consegue saber do que estou falando). Mas, éramos muito despreparados e não fazíamos ideia de que, antes de se pretender ter um cachorro, deveríamos avaliar a compatibilidade da raça ao estilo de vida da família humana.

Resumindo rapidamente, éramos – e somos até hoje – uma família caseira, apreciadora da boa comida, não adepta da prática de atividades físicas, principalmente as que exijam muito esforço, pouco sociáveis e defensores das sestas. Inevitável a conclusão de que tínhamos compatibilidade ( e porquê não dizer afinidade) com bulldogues e pouca, ou quase nenhuma, com os hiperativos labradores.

Então era só uma questão de adaptação às  necessidades fisiológicas inerentes aos bulldogues – tendo em vista que nosso estilo de vida era bem similar: como os cuidados com as dobrinhas e orelhas, exigências de toque e atenção  a maior parte do tempo em que estão acordados, além de puns, arrotos e roncos! Meu Deus! Você não tem ideia de quão ogro um bulldogue pode ser!

Todas essas “falhas” no traquejo social são absolutamente perdoáveis e recompensadas por muito amor e afetuosidade!

Dóris, mais que qualquer outro cão com que já convivi, desde filhote já demonstrava personalidade ímpar: senhora de si, desde o aleitamento, com toda certeza! Não fazia nada contra sua vontade. Desde cedo, entendi que precisaria de algum método de persuasão  mais convincente que trancos na guia e cutucadas, como pregam alguns programas de televisão. Eu precisaria convencê-la a querer fazer o que eu queria que ela fizesse. Foi aí que ela me ensinou a primeira grande lição do manejo de cães, bem como no trato de qualquer outro ser vivo: a  não coercitividade.

Significa que eu aprendi a não exigir do outro que ele se submeta a minha vontade. Afinal, precisávamos encontrar uma maneira de respeitarmos uma a outra, além de nos amarmos e confiarmos mutuamente.

Poderia mesmo escrever um livro para relatar todas as peripécias de Dóris. Talvez, um dia o faça. Possivelmente, uma trilogia ou saga…

Ela cresceu saudável, dona de si e abrindo portas de correr pesadíssimas, que eu mesma tinha dificuldade em abrir (cheguei a pensar que estava com alguma doença degenerativa pois, fechava – sem trancar, é claro – a porta de correr de vidro, com ela do lado de fora e daí a pouco, lá estava ela ao meu lado…até que vi, como ela a abria, com as almofadinhas das patas). Danada!

Ela teve, desde sempre, um único comportamento que não consegui extinguir e com o qual não poderia conviver de maneira despreocupada: comer tudo o que estivesse ao seu alcance. Quando digo tudo, estou falando de tudo, absolutamente tudo! Tudo mesmo! Lápis, pedra, prego, moeda, comida, papel, coquinho. Enfim, não conseguiria ser fiel enumerando tudo que ela comeu! Fato é que ela não era um cão que destruiria um chinelo e você o encontraria em pedaços. Você, simplesmente, não o encontraria. Sabe aqueles coqueiros com espinhos? Os Macaúbas? O dos coquinhos de uns sete centímetros de diâmetro, que se quebra e se come só a castanha pequenininha lá de dentro? Pois é, certa feita, vomitou sete (isso mesmo: sete) coquinhos, de uma única vez. Até hoje, escrevendo esse texto, não consigo imaginar como conseguiu engolir os sete, sem quebrar nenhum!

Esse seu transtorno alimentar me ensinou a segunda grande lição sobre os cães: eles, assim como nossos filhos humanos em idade tenra, são dependentes dos nossos cuidados e atenções. A diferença é que não deixarão de ser, com a idade madura. O serão, por toda sua vida conosco.

Então, eu não podia deixá-la, com acesso irrestrito, sem supervisão. Assim, quando ia me ausentar, precisava deixá-la em seu canil, onde tinha certeza que estaria segurança. Depois de cinco anos juntas, eu finalmente havia, através dela, encontrado a minha missão de vida: cuidar e ensinar as pessoas a cuidarem de seus cães.

E, quando eu pensei que envelheceríamos juntas e ela me daria muito trabalho sendo uma velha ultra rabugenta, ela me ensinou, na prática, uma última lição, em vida: a de que os cães são seres sociáveis (mesmo os Bulldogs ingleses rabugentos)! Me ensinou que os cães não nasceram pra viver em canis, ou áreas de serviços, ou correntes nos fundos dos quintais, ou em qualquer local da casa isolados.

Ela partiu num acidente, em que ela e uma outra cadela nossa, não castrada, no seu primeiro cio, brigaram. Cada uma estava no seu box. Mas, Dóris abria portas e por um descuido meu, não passei o cadeado na porta do seu. Ela abriu,  o seu e também o da outra – um cão de grande porte, doce e educada mas, quem lida com cães sabe que as cadelas no cio tendem a ficar “diferentes” e territorialistas. Tudo aconteceu por uma invigilância minha, seguida por uma fatalidade que foi o fato de haver um acidente na estrada e consequente atraso no meu regresso para casa.

Assim, aprendi da maneira mais dolorosa possível que os cães, diferentemente das nossas crianças humanas, até toleram algum período de tempo sozinhas mas, não muito. Não o dia todo. Não todos os dias. São seres dependentes e que precisam interagir conosco e entre os da mesma espécie. Afinal, quantos de nós, humanos, suportaríamos passar dez, doze horas dos nossos dias, todos os dias úteis, sozinhos, em um apartamento, sem Facebook ou whatsapp? Ou mesmo em um quintal enorme? Sem se entediar? Sem se deprimir?

Não era o caso da Dóris. Ela convivia bem com vários outros cães e conosco, diariamente. Foi um único dia. Um único vacilo que custou a vida da minha filha de quatro patas.

Então, me perguntaram o que eu fiz com a outra cadela, que também é minha filha. Confesso que precisei de algumas semanas para processar todos os meus sentimentos, vivenciar o meu luto e racionalizar a situação.

E aí, Dóris mesmo depois de não estar mais entre nós, nesse plano, me ensinou a maior de todas as lições que já aprendi na vida: operdão! O perdão na forma mais pura, já experienciada por mim!

Como poderia deixar de amar uma filha que por instintos próprios da sua espécie e natureza, desencadeou uma reação fatal a outra? Ainda mais sendo uma cadela de temperamento inquestionável. Extremamente amável e educada, na acepção de ambas as palavras. Como poderia condená-la pelo meu  erro de não me programar para que todos eles não ficassem sozinhos, por tanto tempo?

Não tinha esse direito! Ao contrário, entendi claramente que precisava me dedicar ainda mais a compreender o comportamento dos cães. Me dedicar a entender e aprender como educá-los pois quanto maior o porte deles, maior o estrago de uma mordida, principalmente em cães menores ou crianças.

Precisei aprender a perdoar a ela e a mim mesma. Afinal, me culpar não mudaria a vida dos cães que ainda são cuidados por mim… nem dos que virão a ser.

Com o tempo, percebi que a missão da Dóris na minha vida era me melhorar como ser humano, de todas as formas possíveis. Me ensinar a amar um ser que não nasceu do meu ventre. Me ensinar que tenho responsabilidade sobre este ser, assim como com o que nasceu de mim. Me ensinar o perdão e o amor incondicionais.

E posso afirmar que ela cumpriu com esmero!

Não é uma história triste! Não fique triste! Absorva esse aprendizado, sem precisar sofrer o que sofri.

Gosto de ver o lado bom de tudo. E apesar da falta que ainda sinto dela, ela me modificou de uma maneira eterna e linda! Ela me fez um ser humano infinitamente melhor do que eu era antes dela!

E afinal, não seria esse o propósito Divino da existência desses seres tão puros? Ajudar-nos a sermos mais sensíveis? Amar-nos incondicionalmente e esperar de nós, em troca, amor, proteção e cuidados? Responsabilidade?

Penso que sim! Espero que você, que me acompanhou nessa narrativa, também pense assim e se permita ser amado por um animal de estimação…ou filho de quatro patas!

Gratidão eterna a minha bolota Dóris e a você por ter ficado comigo até aqui!

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