Porque os cães, infelizmente, voltaram a “ser lobos”

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porque os caes voltaram a ser lobos

Esse post é o resumo do terceiro capítulo do livro CãoSenso, de John Bradshaw. Trataremos a seguir, sobre o que, infelizmente, faz com que os cães, até a atualidade, ainda sejam julgados por comportamentos que não condizem nem com o comportamento dos próprios cães domésticos, nem tampouco, o comportamento dos lobos contemporâneos ou aqueles que deram origem a ambas as espécies.

“Por mais de cinquenta anos, o conceito de que o cão é um lobo envolto em uma embalagem atraente dominou o treinamento e o cuidado com cães, e isso teve resultados que se mostraram, para dizer o mínimo, confusos. Algumas orientações que se desdobram logicamente desse conceito equivocado são inofensivas, mas outras, se aplicadas com rigor, podem trazer danos ao vínculo entre o cão e seu dono.”

Muitos treinadores e tutores usam do argumento de que os cães se comportam como os lobos e que, portanto, são competitivos e agressivos para justificar o uso de punição física ao cão. No entanto, como já vimos nos posts dos resumos dos dois capítulos anteriores, toda a análise em que se baseia a estrutura social dos lobos é equivocada. (Se você não leu, clique aqui para ler o resumo do primeiro capítulo; e aqui, para ler o resumo do segundo capítulo.)

A afabilidade dos cães é mais um ponto fraco na teoria de que cães não se comportam de maneira diferente da dos lobos. A grande maioria dos cães gosta de interagir com outros cães e a maioria absoluta ama humanos. Os lobos, apesar de viverem em bando, não interagem com membros de outros bandos de maneira harmoniosa e não são nada afáveis com humanos.

Os biológos modernos consideram que todo comportamento cooperativo é excepcional. Para eles, o comportamento padrão de todo animal é defender a si mesmo e os recursos essenciais a manutenção de sua própria vida: comida, acasalamento e território. Tanto contra qualquer animal quanto principalmente os da mesma espécie que, nesse caso, competiriam diretamente com o primeiro. No caso dos lobos, assim como de muitas outras espécies, a cooperação por parentesco ocorre porque essa cooperação os capacita a propagar seu material genético de maneira mais efetiva. Quanto menos genes compartilhados, entre dois grupos distingos, duas hipóteses ocorrerão: se evitarão, mutuamente; ou lutarão, caso se encontrem.

Os cães, contrariamente a isso, ficam felizes quando em grupos não relacionados geneticamente. Segundo Bradshaw, adestradores da”velha escola” poderiam dizer que o são por terem sido treinados para serem assim. Mas que “no interior de cada cão, afirmam eles, espreita um lobo selvagem, capaz de atacar a qualquer momento a garganta de qualquer cão que encontre(…) Muitos manuais de treinamento ainda enfatizam a necessidade de uma constante vigilância a partir do momento em que os cães jovens começam suas inexoráveis tentativas de dominar ou controlar todos ao seu redor, sem importar que sejam cães ou seres humanos. A única resposta, dizem eles, é assegurar, desde o primeiro dia, que os cães saibam que seu dono é o chefe – posição que, supõe-se os seres humanos sejam capazes de assumir ao imitarem o modo pelo qual os lobos dominantes controlam seus bandos.”

Bradshaw pondera que é difícil precisar a que se deve a sociabilidade dos cães sem ter acesso às informações sobre como, efetivamente, se comportavam os “lobos antigos domáveis” que deram origem aos cães. E que talvez não seja interessante tentar entender o comportamento dos cães sob o ponto de vista de sua origem mas sim entender de que forma os cães se organizariam, se tivessem escolha, longe da interferência humana. O que também não é um missão fácil já que poucos cães vivem efetivamente sem essa interferência.

“Os cães raramente sobrevivem muito tempo longe dos assentamentos humanos, sobretudo porque a domesticação praticamente destruiu sua capacidade de caçar com sucesso. Apesar de alguns elementos da conduta de caça terem permanecido em algumas raças de trabalho, poucos cães possuem a capacidade inata de colocar todos esses elementos juntos para localizar, caçar, matar e consumir presas regularmente – e certamente não o conseguiriam se tivessem que competir com outros predadores.”

Exceto pelos cães de aldeia que praticamente não são controlados pelos homens: vivem nas periferias da sociedade, reviram lixo e restos de comida mas, são independentes das pessoas e não demonstram lealdade a nenhum homem. São comuns em países tropicais e subtropicais. Podem ser conhecidos como cães párias, da Índia, cão de Canaã de Israel, cão da Carolina do sudeste dos Estados Unidos e cães de aldeia da África, parecidos com os basenjis. Ainda o cão cantor da Nova Guiné, o Kintamani de Bali e o dingo australiano (único cão completamente selvagem que descende de cães domésticos).

” O DNA desses cães sugere que muitos são na verdade nativos de suas áreas. (Ao contrário, o DNA dos cães da América tropical sugere uma descendência de cães europeus puros-sangues fugidos).”

O dingo portanto seria um bom ponto de partida para avaliar como cães domésticos realmente se comportam. Ele surgiu quando, há uns 5 mil – 3.500 anos, uma única cadela prenhe fugiu para a mata e sua prole encontrou outros cães fugidos, na extremidade mais ao norte da Austrália continental. Como tiveram pouca resistência dos predadores locais, conseguiram se estabelecer caçando. O problema em se tomar o dingo como referência é que os que foram estudados o foram no mesmo contexto do lobo: em cativeiro. O que certamente distorceu efetivamente a estrutura social desses cães. Além de terem vivido milhares de anos de maneira selvagem, novamente, o que pode tê-los feito regredir no que tange às condutas sociais dos então cães de aldeia de quem descendiam. Logo, já não podem ser considerados “domésticos”.

Os poucos estudos mais recentes sobre esses cães de aldeia também não podem ser considerados como referência legítima uma vez que foram realizados em países onde cães selvagens são considerados como incovenientes (e eram perseguidos, muitas vezes caçados e mortos) não conseguindo assim, estes, permanecer por muito tempo num mesmo lugar. Logo, seus sistemas sociais retratavam competições diferentemente do que se espera de grupos que tenham tempo suficiente para desenvolverem sua própria cultura social.

“Para prosperar, a conduta cooperativa apoia-se com certeza nas circunstâncias certas – interação regular com os mesmos indivíduos , acesso a suficiente comida e a abrigo consistente, bem como uma estrutura baseada em laços familiares. Só então um grupo será bastante coerente para atuar junto contra outros grupos sem colocar em desvantagem nenhum de seus membros.”

Claro que esses estudos, também, não podem nos dizer nada sobre a afabilidade dos cães domésticos!

Em Bengala Ocidental, cientistas encontram os cães párias que vivem ao lado dos aldeões, com tolerância mútua. Simulando assim, os cães que viveram no Crescente Fértil do Oriente Próximo ( região localizada entre o OrienteMédio – vales dos rios Tigre e Eufrates – e nordeste da África – vale do rio Nilo) , onde se imagina ter surgido a civilização moderna, há 10 mil anos. Eles reviram os lixos e, eventualmente, são alimentados deliberadamente, o que não caracteriza nenhuma propriedade. “Trata-se de animais independentes, que vivem um estilo de vida parasita, como o pombo urbano.”

A independência desses cães possibilita uma avaliação de uma estrutura social natural de um cão. Inclusive, apresentando algumas semelhanças com os lobos, como por exemplo, se agruparem em grupos não muito grandes, de cinco a dez membros. Mas, alimentam-se sozinhos uma vez que, na região, as presas são menores e não requerem o esforço de uma caça comunal. Já seus comportamentos sexuais e parentais são bem diferentes dos lobos e assemelham-se mais com os dos coiotes. Assim como nossos cães domésticos, vários podem copular com a fêmea no cio. Mas, um desses machos forma um casal com ela e permanecerão juntos até o nascimento dos filhotes, às vezes o macho até auxilia nos cuidados com a alimentação dos filhos. Mas, no caso dos lobos, só um macho tem direito a acasalar com a fêmea alpha, logo, macho alpha e ele é pai de toda a ninhada.

“(…) cada ‘bando’ de cães de aldeia anualmente se fragmenta em pares, cada qual deles cuida de sua prole separadamente até que o casal e seus jovens adolescentes retornem ao grupo. Quando a próxima temporada de acasalamento chega, cada adulto pode formar um casal diferente daquele de que participou no ano anterior. Ao contrário dos bandos de lobo, não há uma consistência aparente na estrutura familiar, nem os jovens adultos ajudam seus pais a criar a ninhada do ano seguinte.”


Fêmeas adultas são tolerantes umas com as outras, mesmo quando no cio, sem “monopolizar o melhor dos machos”. Não apresentam “indicadores ritualizados de dominação e submissão” como os bandos dos lobos cativos mas, trocam o que “parecem ser sutis sinais de saudação”.

“No entanto, tudo leva a crer que há algum tipo de hierarquia: o par reprodutor mais velho é o mais agressivo, particularmente em face de qualquer macho solitário. Possivelmente, o macho do casal encara esses machos solitários como potenciais futuros rivais; já a fêmea pode ficar preocupada com a segurança dos filhotes.”

Mais uma diferença é o fato de bandos de lobos vizinhos se evitarem ao máximo, para evitar o conflito. Já esses cães parecem ser capazes de conviver de maneira amigável. Eles não demonstram nenhuma intenção em fazer com os grupos vizinhos, mesmo sem parentesco, se afastem. Não se observou nenhuma das características competitivas observadas entre lobos não parentes.

“À medida que se tornam adultos, os adolescentes compartilham território com seus pais, mas não ajudam a criar seus irmãos e irmãs mais novos. Embora hierarquias de dominação sejam evidentes, elas indicam apenas quais cães têm prioridade de acesso à comida e ao abrigo, e não quais deles se reproduzem com sucesso. (…) Não existe o menor fiapo de evidência de que estejam constantemente motivados para assumir a liderança do bando de que fazem parte, como diria a teoria ultrapassada do bando de lobos.”

Como os cães párias não organizam suas sociedades como os lobos, nem os selvagens, nem os cativos, para excluir a remota possibilidade de que, nos cães de estimação tenham evoluído, de alguma forma, o “desejo de dominação”, ainda defendido por alguns adestradores, Bradshaw e um grupo de alunos fizeram uma pesquisa de observação de cães em um abrigo, no Reino Unido. Eram cães que iniciaram suas vidas em circunstâncias domésticas, castrados e com imprevisibilidade comportamental em relação a humanos, além de estarem convivendo com outros cães, nas mesmas condições, sem nenhum grau de parentesco. Ou seja, se fosse da vontade de um cão doméstico exercer dominação sobre um igual, assim como na pesquisa feita com os lobos em cativeiro, esse seria o cenário perfeito.

“No entanto, muitas horas de observação não revelaram nada disso. Havia muito comportamento competitivo para registrar: alguns cães rosnavam ou latiam, fingiam morder os pescoços dos outros, tentavam montá-los, ou caçavam uns aos outros em volta do terreno. Outros reagiam rastejando, olhando para outro lado, lambendo os beiços ou fugindo.(…) Mais de um terço das interações tinha lugar entre apenas quatro pares de cães (…). Não ficou claro exatamente por que esses pares de ‘companheiros’ se formaram. (…) No entanto, revelam que os cães, ao contrário dos lobos, acham fácil estabelecer relacionamentos harmoniosos com cães com os quais não são relacionados por parentesco e com os quais não se encontraram até que ambos fossem adultos.”

O estudo, no entanto, reforçou todas as evidências científicas já exsitentes de que a domesticação destituiu os cães da maior parte dos aspectos sociais dos lobos mas, assim como em muitos outros animais, os cães mantiveram a propensão a preferir a companhia de parentes à de não parentes.

Apesar de todas as evidências apontarem na direção de que lobos (de qualquer época ou local) se comportam socialmente diferente dos cães muitas pessoas ainda “se agarram a comparações equivocadas e desatualizadas”. Bradshaw sugere que a pergunta que deveria ser feita é: “o comportamento do lobo tem algo de útil a nos dizer sobre o comportamento dos cães de estimação?”

“A sabedoria convencional sustenta que cada cachorro sente uma necessidade avassaladora de dominar e controlar todos os seus parceiros sociais. Na verdade, a palavra ‘dominação’ é usada amplamente em descrições de comportamento canino. Sobre os cães que atacam pessoas a quem conhecem bem ainda se diz, de maneira universal, que sofreram de ‘agressão por dominação’. O termo algumas vezes até mesmo é usado, incorretamente, para descrever a personalidade de um cão. Vejam essa citação retirada do site da American Dog Trainers Network [Rede Norte-americana de Treinadores de Cães]: ‘Um cachorro dominador sabe o que quer e se dispõe a consegui-lo de qualquer maneira ao seu alcance. Ele tem charme; muito charme. Quando isso não funciona, ele tem persistência, com P maiuscúlo. E quando tudo o mais falha, ele tem atitude.’ Na verdade, essa é apenas a descrição de um cachorro indisciplinado, não adestrado, mas de certa forma encantador. Não diz nada sobre como são os relacionamentos desse cão com outros cães – nada sobre seus relacionamentos, ‘dominantes’ ou de outro tipo. Outros usos imprecisos ou de enganadores do termo ‘dominância’ abundam no treinamento de cães. Por exemplo, o famoso treinador norte-americano Cesar Millan referiu-se a cães que tentavam ‘dominar’ gatos, e, de um cão que caçava a luz de um poonteiro a laser, foi dito que tentava ‘dominá-la’, comportamento que um biológo imediatamente classificariade predatório, não social.”

De maneira correta, o termo dominância descreve um relacionamento entre dois indivíduos em um momento específico no tempo. Nada diz sobre a personalidade, temperamento ou comportamento. Mas, sim sobre como se relacionam dois indivíduos, num dado espaço de tempo, independente de estarem conscientes sobre exercerem ou sofrerem dominação, um sobre o outro. Nada garante, que esses mesmos indivíduos, em outro momento, em outras circunstâncias, assumirão, respectivamente, as mesmas posições, na relação em questão.

Para definir que há um relacionamento de dominação, os membros do grupo em questão deveriam, obrigatoriamente, estar submetidos a uma hierarquia fixa e bem constituída, onde cada indivíduo deve estar subordinado a todos acima dele. Muitas vezes, nos grupos de cães, um indivíduo que tem a maior parte dos seus relacionamentos, estando em situação de subordinação pode, em um dado momento, em uma situação, ser dominante com outro indivíduo, que na maioria dos relacionamentos pode estar bem acima na hierarquia mas, não nesse caso, especificamente. Ou seja, essa hierarquia pode nem existir, logo não tem como haver dominação, de um sobre todos. Para se dizer que um cão é dominante, ele precisaria ser dominante em todas as circunstâncias e ter preferência a todos os direitos de um macho ou fêmea alpha e isso deveria ser percebido pelos subordinados, em todas as circunstâncias.

Esse conceito embasado pelas pesquisas com os lobos em cativeiro não confirmam o que define dominância num bando de lobos selvagens, onde o alpha (fêmea ou macho) adquire esse status em virtude de ser o mais velho do bando. E não porque precisa lutar para se tornar um alpha.

Tendo como base, então, que os lobos selvagens se organizam em grupos familiares (e que muito provavelmente, os lobos que deram origem ao nosso cão, também). Bradshaw defende uma teoria de que, muito provavelmente, fomos capazes de nos inserir no contexto do grupo/família daqueles lobos, na estrutura familiar. Não como parentes cosanguíneos, é claro! Mas, como crianças que são adotas e cuidadas por adultos e que se afeiçoam uns aos outros.

O fato dos canídeos compartilharem uma estrutura social fundamentalmente cooperativa favoreceu para que essa nova estrutura se formasse e, não há porquê acreditar que ela se perdeu, nos cães domésticos, dando lugar à uma estrutura onde a dominação é a base das relações.

Os cães são competitivos quando “precisam” ser e não o tempo todo, em todas as suas relações. “A maior parte da conduta competitiva dos cães selvagens é sazonal e observável no contexto de acasalamento e reprodução (…)”.

Já ficou claro que os lobos estudados no cativeiro e os lobos selvagens atuais não servem de referência para entendermos como os cães domésticos estabelecem suas relações sociais e que estas não se estabelecem por hierarquias.

“A noção dos cães entenderem ou não a noção de hierarquia – e seu próprio lugar nela – tem uma implicação muito profunda no que diz respeito ao modo como nos relacionamos com eles. Se os cães entendem essa ideia, então, os métodos de treinamento baseados em conceitos como ‘redução do status’ e ‘colocar o cão no seu lugar’ têm um fundamento lógico e, portanto, deveriam ser efetivos. Mas, se os cães não têm nenhum conceito sobre seu próprio status, então tais métodos provavelmente emitem uma mensagem diversa da que se pretendia transmitir. Muitos desses métodos envolvem infligir punições ao cachorro. Assim, a questão de que os cães entendam ou não as hierarquias não é apenas um exercício acadêmico: pode ter consequências reais para o bem-estar deles.”

Assim sendo, uma alternativa ao modelo de dominação para explicar melhor como os cães evitam conflitos ao invés de fomentá-los, a todo o momento, seria o modelo do potencial de retenção de recursos (Resource Holding Potencial – RHP).

“(…) De acordo com esse modelo, sempre que surge um conflito de interesses, pensa-se que cada cão toma suas decisões considerando as respostas a duas perguntas: ‘quanto quero esse recurso (comida, brinquedo, etc.)?’ e ‘qual é a probabilidade de que o outro cão me vença se lutarmos por ele?’ (…)”

O cão leva em conta quanto o oponente realmente está disposto a entrar em um conflito para ter acesso àquele recurso, animais que ameaçam primeiro e com mais ênfase podem vencer, mesmo que não sejam os maiores, no contexto. Experiências anteriores com os mesmos cães ou com cães parecidos podem ser levadas em consideração mas, o modelo é útil também para primeiros encontros. Portanto, é um modelo que tem muito mais possibilidades de uso, em diferentes circunstâncias, do que o da dominância.

Bradshaw estudou um grupo de buldogues franceses onde, “uma de quatro cadelas parecia ter prioridade de acesso à comida – mesmo que ela não fosse a mais velha nem a mãe da ninhada mais recente (uma descoberta que também contradiz o modelo do lobo). O único macho do grupo se submetia a ela em relação à comida, mas normalmente tinha prioridade de acesso aos brinquedos e era o primeiro a farejar qualquer cão macho não familiar.”

Ele pontua que essas, e outras observações no estudo, evidenciam que o status não podem ser o princípio orientador na compreensão da motivação de cães competirem por um dado recurso. E nos apresenta uma das regras do modelo do potencial de retenção de recursos: se um dos cães parece querer muito um dado recurso e o outro não, esse entende que não vale a pena entrar em conflito.

Uma outra regra importante do modelo é “não entre em uma briga se o seu oponente é bem maior do que você.” Os cães, diferentemente de todo o reino animal, parece não levarem muito isso em consideração (quem já presenciou um cãozinho com síndrome de napoleão encarando um oponente enorme?). Ele então sugere uma adaptação dessa regra para os cães:

“(…) quando um cão está decidindo como proceder em um encontro com outros, a aparente motivação do outro cão parece merecer maior importância do que seu tamanho real e sua força.”

Na natureza, os animais evitam entrar em conflito e só o fazem quando é inevitável ou quando há muito em risco como sobrevivência e acesso a comida. Como os cães têm isso fornecido pelos humanos, eles podem, ao longo da evolução do processo de domesticação, ter desenvolvido menos essa capacidade de demonstrar cuidado antes de dar início a luta mas, ainda assim, eles tendem a avaliar se os resultados valerão a pena porque podem ficar gravemente feridos, porque a domesticação fez com que tolerassem outros cães próximos pois os humanos valorizavam os cães com esse limiar maior e porque, normalmente, são selecionados cães que demoram mais para entrar em estado agressivo, em detrimento dos mais esquentadinhos.

Na maioria dos casos, nossos cães domésticos escolherão emitir sinais não verbais, comunicando fisicamente suas intenções, antes que se animem a, efetivamente, entrar em conflito (sinais de apaziguamento, por exemplo). Quanto mais dois cães se acostumarem um com o outro, mais conhecerão os sinais que cada um emite, em determinada circunstância. Não há, porém, evidência que indique que os cães consigam antecipar o que o outro cão fará, num momento seguinte.

“(…) os cães parecem aperfeiçoar continuadamente simples ‘regras de ouro’ que os capacitam a conviver uns com os outros: ‘evite aquele cachorro quando ele estiver comendo’ ou ‘brincar de cabo de guerra com esse cachorro é divertido porque ele me deixa ganhar algumas vezes, mas não é divertido com aquele outro porque ele sempre quer levar o brinquedo embora’.”

Os cães associam outros cães a resultados das interações que vivenciaram. E, a cada nova interação, vão aperfeiçoando essa “regra de ouro”, tornando cada novo ciclo menor que o anterior. Por isso, os primeiros encontros entre dois, ou mais, cães podem ser cruciais para determinar a formação de uma dessas “regras de ouro”. É fundamental sempre proporcionar que as interações se dêem de maneira gradual, positiva e controlada. Então, se em um primeiro encontro houver uma reação que cause medo em um dos cães, por exemplo mas, em encontros seguintes, as interações ocorrerem de maneira positiva, isso logo será esquecido. Mas, senão houver possibilidade de resignificar essa relação, o cão que sentiu medo pode ter como emoção em relação à essa interação o medo e, inclusive, generalizar esse medo para outros cães fisicamente parecidos com esse que causou a emoção nele.

“Esse sentimento pode se tornar muito persistente se nada acontecer para neutralizá-lo, o que enfatiza a necessidade de os donos serem cautelosos ao apresentarem um filhote ou cão jovem a outros cães.”

Assim, no modelo de potencial de retenção dos recursos, o cão além de avaliar a motivação do outro cão em obter um dado recurso, usará, também, as informações obtidas através das experiências que teve com cães de aparência similar e/ou num contexto similar.

Ainda que em um grupo de cães que vivem na mesma família, os relacionamentos que surgem possam ser vistos por nós como inseridos em um contexto hierárquico, isso diz respeito sobre nosso ponto de vista e conceitos e não há evidências de que os envolvidos saibam de suas respectivas posições, nem tampouco tentem, a todo momento, manter seus status, dentro dessa estrutura. Logo, não há a necessidade de reduzir o status de nenhum cão, dentro de um grupo, para que nos coloquemos em posição superior, como sugere o modelo de dominação ultrapassado. Assim como, não faz sentido dizer que os cães nos vêem, aos humanos, como seres de uma mesma espécie.

Bradshaw apresenta uma lista (pag.135) com alguns mandamentos que os adestradores da “velha escola” enumeram para que o cão não tome o status de liderança, acima do seu humano. Dentre estes, alguns como não permitir que o cão passe por portas antes de nós ou que se alimente antes de nós, por exemplo. O que se os cães não têm noção do status não acarreta, particularmente, nenhuma consequência para eles.

Entretanto, alguns dos intens dessa lista, como por exemplo “Não interaja com seu cão a não ser que se trate de alguma espécie de treinamento” ou “Não abrace ou afague o seu cão” interfere diretamente no prazer que se espera ter ao trazer um cão para nossa casa.

Alguns desses “mandamentos foram investigados cientificamente mas, não houve nenhuma evidência que apoiasse nenhum deles.

“Os cães aos quais se permitiu que não respeitassem os dez mandamentos listados no exemplo acima não só não controlavam a conduta de seus donos, como também não eram mais agressivos que outros, o que deveriam ter sido se seus donos inadvertidamente lhes tivessem dados sinal verde para assumir o controle da família.”

Diante de tantas contrariedades científicas e lógicas, Bradshaw reitera que não há motivo para que a domesticação não tenha favorecido o aperfeiçoamente de traços de afabilidade e docilidade naqueles lobos que foram tolerados em detrimento dos que seriam mais agressivos e que pudessem tentar dominar os humanos, mesmo naquela época. Mesmo que houvessem lobos com essas características à época do início da domestição que culminou no nosso cão.

“O tradicional modelo do lobo é contrariado tanto pela concepção atual de como os lobos na verdade organizam suas vidas quanto pela lógica do processo de domesticação – e já que não explica de forma adequada o comportamento social entre cães, também é altamente improvável que seja útil para explicar o relacionamento entre os cães e seus donos. (…) esse enfoque sabota a alegria de ter um cão. No pior dos casos, é usado para justificar o castigo físico como um componente essencial do treinamento. (…) são desnecessariamente estressantes para o cão. Apesar de parecerem superficialmente efetivos (…) não funcionam bem em longo prazo, por razões que são meridianamente claras para os cientistas que estudam como os animais aprendem.”

Pra mim, esse é o capítulo mais interessante, do livro, pois nos liberta da necessidade de lutarmos com nossos cães, como se fôssemos lobos! Tira as correntes não só dos cães mas, as nossas no sentido de nos preparar para o que vem à seguir, que efetivamente vai nos ensinar a melhor maneira de interagir com nossos cachorros.

E você: acreditava que tinha um cachorro dominante em casa e agora entendeu que isso não faz sentido? Me conta! Vou adorar saber!

Não deixe de acompanhar a série com o resumo dos capítulos desse livro fantástico e esclarecedor!

Fonte: Cão Senso. Bradshaw, John. 2011; Tradução: José Gradel; Rrevisão Técnica: Tomás Szpigel;

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