De onde vieram os cães – Seu cachorro não é um lobo!

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Você, assim como a maioria das pessoas, pode ter a certeza de que os cães “vieram” dos lobos. Muitos programas televisivos (principalmente sensacionalistas) fazem questão de enfatizar que nossos cães são lobos, em peles mais macias.

Segundo pesquisas de sequenciamento genético, os cães são descendentes do lobo cinzento. E compartilham 99,96% dos seus genes com os lobos atuais e 25% deles, conosco (já que somos todos mamíferos). Para você ter um parâmetro de comparação, chimpanzés e bonobos compartilham 99,6% dos genes e têm comportamentos sociais bastante distintos, uns dos outros.

Cães e lobos têm ancestrais comuns, assim como os macacos e nós. Apesar de compartilharmos características que nos agrupam (várias são as categorias taxonômicas que nos classificam mais especificamente como espécies, gêneros, famílias e etc…), o importante é sabermos que, apesar de compartilharmos um ancestral comum e quase a totalidade dos nossos respectivos DNA’s, o que não compartilhamos é o que nos define.

“Como os bonobos e os chimpanzés, os cães e os lobos cinzentos compartilham a maior parte de seu DNA, mas parece haver pouca razão para presumir que, por isso, eles devam inevitavelmente compartilhar também os mesmos sistemas sociais. Na verdade, a domestição parece ter dissolvido, nos cães, muitas das particularidades de comportamento específicas dos lobos (…)”


Assim sendo, faz muito mais sentido entendermos o repertório comportamental de um cachorro estudando o comportamento de cães domésticos, ao invés de lobos selvagens.

Porque a própria domesticação, por si só, transformou o cão e o diferenciou dos lobos.

A estrutura social dos cães, equivalente às alcatéias seria a matilha. Mas, eles só vivem dessa forma se estiverem sem a interferência do homem. Já os lobos têm uma estrutura social muito organizada e colaborativa. Onde somente o casal mais velho reproduz e os descendentes destes, podem ficar no mesmo bando, cooperando na manutenção das atividades de caça e cuidados com os mais novos.

“A natureza das alcateias é decisiva para compreender a conduta social dos lobos e, assim, a herança comportamental dos cães domésticos. Até pouco tempo atrás, porém, pensava-se erroneamente que os grupos de lobos fossem organizações competitivas. Agora, sabe-se que a maioria dos ‘grupos’ de lobos é, na verdade, composta de grupos familiares. Tipicamente, um macho solitário se acasalará com uma fêmea solitária – cada um deles ou ambos terão deixado recentemente uma alcateia – e criarão uma ninhada juntos. Em muitas espécies, os jovens vão embora, ou são expulsos, quando têm idade suficiente para se defenderem sozinhos, mas, isso não acontece com os lobos. Desde que ninguém passe fome, os filhotes podem ficar com os pais até que cresçam. Uma vez que tenham experiência bastante, participarão em pé de igualdade nas caçadas, e assim surge uma alcateia. Com frequência os membros jovens ainda farão parte do grupo quando a próxima ninhada nascer. Ajudarão seus pais a criar seus irmãos e irmãs: trarão comida para os filhotes e cuidarão deles quando os outros membros do bando estiverem caçando. Na contramão de muitas noções sobre o comportamento do lobo, a cooperação – e não a dominação – parece ser a essencia da alcateia.”

Os cães mesmo quando vivem em bando, não existe essa estruturação e todos procriam com todos, por exemplo. Nem o pai da ninhada cuida dos filhotes, sendo essa uma tarefa exclusiva das mães.

Mas, não é esse o cenário contextualizado em programas de tv e livros sobre comportamento canino. Os primeiros biólogos a estudar o comportamento dos lobos se basearam em observação de lobos não parentes em cativeiros. E como resultado desse contexto, as relações derivadas eram, diferentemente da descrição anterior, baseadas em rivalidade, agressividade, força e dominação.

“O verdadeiro retrato da sociedade dos lobos surgiu apenas quando os lobos tornaram-se animais protegidos, quando se permitiu que as alcateias se formassem e se desenvolvessem por vários anos, sem ficarem fragmentadas pela perseguição continuada.” E com os avanços tecnológicos para rastreamento e consequente observação dos lobos em seus habitats, sem interferência humana.

Então, toda aquela tal “teoria da dominância” não tem valor efetivo para se entender o comportamento dos lobos e, muito menos, o comportamento dos cães. Logo, todos aqueles programas de tv e livros que apontam que o seu cãozinho doméstico quer te dominar estão, além de desatualizados, muito equivocados!

“Nos bandos de lobos em cativeiro, o par reprodutor é convencionalmente chamado de ‘macho alfa’ e ‘fêmea alfa’. Muitos treinadores de cães pegam carona nessa concepção e insistem em que os donos devem imprimir seu próprio status de ‘alfa’ sobre seus cães, que, no caso contrário, seriam levados a querer o status de ‘alfa’ para si mesmos.”

(Soltei uma boa gargalhada ao ler esse último trecho do livro em que me baseei para fazer esse resumo sobre a origem dos cães – Cão Senso. Ao pensar que todos nós já acreditamos nisso, em algum momento das nossas vidas. E aí me entristeci, por alguns ainda insistirem em acreditar!)

Segundo John Bradshaw, duas razões suplementares devem ser identificadas para se entender que o comportamento dos lobos não pode ser o único elemento para se compreender o comportamento canino. “Os cientistas estudaram (inadvertidamente, para sermos justos) os lobos errados (no continente errado) e 10 mil anos tarde demais.”

Nesse momento, preciso que você entenda que estou fazendo um resumo que torne fácil o acesso a essa informação que acho importantíssima para todo e qualquer humano que se relacione com um cão. Então, despindo o texto do Bradshaw o máximo que consigo, expresso minha interpretação dos fatos, a seguir:

Sempre estudou-se o lobo americano do leste ( uma subespécie do lobo cinzento) como referência para entender o comportamento dos cães. Então, até mesmo por falta de tecnologia disponível, era o que tinha pra ontem, no caso!

Melhoradas essas tecnologias, ainda não havia sido possível rastrear o DNA de nenhum dos cães que vivem nas Américas até os tais lobos americanos do leste. Não por falta de esforço. A primeira análise foi feita com os cães xolos (do México) que, desde a “dominação” pelos espanhóis estão presentes no país e se mantiveram “intactos” por serem considerados sagrados e, portanto, serem criados em segredo. O que garantiu que seus descendentes existissem até hoje. O mapeamento genético revelou que seus genes são mais similares aos dos cães (e lobos) europeus, e não ao dos americanos.

Como essa hipótese não confirmava nada sobre a origem dos cães ser nas américas, os pesquisadores investigaram então, DNA extraído de tutano de ossos de cães com mais de mil anos de idade, encontrados em escavações arqueológicas no México, Peru e Bolívia… e em solo congelado no Alasca, também. Novamente, os DNA’s eram muito mais parecidos com os dos lobos europeus que dos americanos.

“O ceticismo sobre as comparações entre lobos e cães justifica-se mais ainda pelo fato de que, embora a análise de DNA indique que os cães descendem dos lobos cinzentos eurasianos, nenhum dos lobos que foram estudados nos últimos setenta anos, americanos ou europeus, pode possivelmente ser considerado antepassado do cão doméstico: os dois certamente tiveram um ancestral comum há muitos milhares de anos, mas não há evidências sugestivas de que os lobos modernos se pareçam rigorosamente com esses ancestrais comuns. Na verdade, a lógica dita precisamente o oposto”

Apesar dessa lacuna temporal, mais recentemente na nossa história evolutiva, quando os homens começaram a criar rebanhos, por exemplo, era evidente a necessidade de se afastar lobos selvagens pois eles se valeriam dos animais do rebanho presos num local, tornando-se assim presas fáceis. Então, os lobos selvagens que sobreviveram a essa matança, devem ter sido os mais selvagens de todos… os que tinham mais medo de se aproximar dos humanos.

Logo, o lobo que foi antepassado do lobo selvagem atual e do cão doméstico, não existe mais! Entendem como o lobo que foi estudado em cativeiro e que definiu grande parte do que a maioria das pessoas ainda aceita como sendo o comportamento social de um cão, sequer é um lobo que foi ancestral ao nosso cão. Tendo em vista que ambos, lobo e cão, se transformaram ao longo desses muitos anos de evolução.

“…não temos razão para supor que qualquer desses lobos se assemelhe com precisão ao tipo de lobo originalmente domesticado. Tais lobos não existem mais. Estão longe de serem considerados extintos, uma vez que têm milhões de descendentes vivos, nossos cachorros, mas não existem mais na natureza. Seus equivalentes selvagens mais próximos são provavelmente os cães ferozes, cães domésticos que reverteram a uma existência selvagem ou semisselvagem. Esses também são descendentes diretos do ancestral selvagem do cão e têm um estilo de vida similar ao dele, independente.”

Todas as espécies atuais que sucederam a esse lobo selvagem, têm características que provavelmente compartilharam com seus ancestrais comuns como viver em grupos familiares, o olfato como principal sentido, a inteligência e adaptação que flexibilizaram o cão para um nível de domesticação e relação conosco até hoje insuperável… ambos são caçadores e/ou carniceiros (e aqui você já pode observar que alguns dos comportamentos que você menos gosta no seu cão está muito arraigado na espécie).

Sempre quis fazer um resumo desse livro para trazer para o máximo de pessoas que eu conseguisse alcançar a informação de que não temos a certeza de quando os cães deixaram de ser lobos e passaram a ser cães… Não temos a certeza de onde isso se deu, até aqui… Mas, temos a certeza de que o comportamento daqueles lobos cativos, não parentes, não pode ser usado para definir nem o comportamento dos próprios lobos, nem tampouco dos nossos cães domésticos.

Esse foi o primeiro post sobre esse livro maravilhoso. Espero que tenha conseguido deixar mais leve e acessível essas informações e que você possa me ajudar a disseminá-la para que nossos cães deixem de sofrer cutucões… deixem de ser enforcados e virados de barriga pra cima!

Nossos cães não são lobos!

Fonte: Cão Senso. Bradshaw, John. 2011; Tradução: José Gradel; Rrevisão Técnica: Tomás Szpigel;

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