Sinais de Calma ou Sinais de Apaziguamento

lobos selvagens

Os sinais de calma são sinais que os cães emitem através de sua expressão corporal para evitar uma situação de conflito.

“Os cães, como animais gregários, possuem uma linguagem para comunicarem entre si. Em geral, a linguagem canina consiste numa grande variedade de sinais utilizando o corpo, a zona facial, as orelhas, a cauda, os sons, os movimentos e as expressões. Esta habilidade inata dos cães, de compreender e fazer estes sinais, desaparece ou é reforçada através das suas experiências ao longo das suas vidas. Se estudamos os sinais que os cães fazem entre si e se os aplicarmos a nós próprios, aumentamos a nossa capacidade de comunicação com os nossos cães. Os sinais caninos mais notórios são os sinais de calma, que utilizam para manter uma hierarquia social estável e para resolver os conflitos na matilha. São competências que, quando aplicadas na nossa interação com nossos cães, são extremamente benéficas para a relação. Os cães possuem a capacidade de se acalmarem entre si quando enfrentam uma situação traumática (uma situação de medo ou estressante) e também para se acalmarem uns aos outros. Consideremos, por exemplo, a forma como se apresentam uns aos outros. Os cães que demonstram estar receosos num encontro ‘social’ podem comunicar diversas sensações como, por exemplo, ‘sei que aqui tu és o líder e não vou dar-te problemas.’ Para além disso, o líder também pode querer transmitir-lhe que não tem a intenção de criar problemas. ‘Não te preocupes, eu sou o chefe aqui e não tenho a intenção de te fazer mal.’ Os cães que não utilizam os sinais adequados podem ser aqueles que provocam problemas.”¹

Essa é a essência da Teoria dos Sinais de Calma que Turid Rugaas desenvolveu através de anos observando, vivendo, experimentando e trabalhando com cães.

Segundo ela, esses sinais são “utilizados numa fase inicial para prevenir que algo aconteça, para evitar ameaças das pessoas ou de outros cães, reduzir o nervosismo, o medo, o ruído ou os acontecimentos indesejados.*”

Na natureza, os animais tentam ao máximo evitar conflitos desnecessários porque, instintivamente, sabem que uma ferida pode infeccionar e levar a morte.

Evolutivamente, os cães herdaram dos seus ancestrais lobos a capacidade de se comunicarem através de uma linguagem corporal. Intuitivamente, nascem com essa capacidade e esta, por sua vez, pode se desenvolver e se potencializar ou, devido a algumas situações, podem se extinguir. Tornando o repertório comunicacional desse cão pobre e, por consequência, prejudicando as interações sociais deste.

Serem retirados do convívio de sua mãe e irmãos de ninhada muito precocemente e não serem socializados com outros cães, desde bem cedo pode interferir negativamente no desenvolvimento dessa habilidade. Assim como, os diferentes estereótipos das raças e suas variações pode dificultar a aplicação dessa linguagem. Orelhas e caudas mutiladas, ou curtas a ponto de serem quase inexistentes…ou orelhas que não se abaixam, por exemplo, podem dificultar a fluência do cão que comunica e, consequentemente, a do cão que recebe a mensagem.

Mas, existem muitas outras maneiras de se expressar, através de outras partes do corpo. Então, não pense que seu bulldogue francês é incapaz de se comunicar por ter orelhas de morceguinho e rabinhos embutidos!

“A dinâmica social na matilha, nos lobos, é frequentemente utilizada como modelo para explicar a interação cão-cão e cão-homem. Vi amantes de cães (e também alguns entusiastas dos lobos) estarem convencidos da necessidade de manter um elevado estatuto na hierarquia utilizando recursos agressivos, por acreditarem que suas únicas opções residem entre impor o seu domínio através da força ou submeter-se ao animal. O problema dessa abordagem é duplo. Em primeiro lugar, a agressão facilmente tende a aumentar e, em segundo lugar, tanto para os lobos, para os cães assim como para os humanos existem outras possibilidades de escolha diferentes do domínio ou da submissão.”²

Através da utilização desses sinais, podemos entender o que nosso cão sente, pela sua expressão corporal. Bem como, emitirmos alguns desses sinais para transmitir mensagens a ele. Não há necessidade de imposição quando a comunicação é eficiente!

Os sinais de calma podem ser movimentos rápidos, ligeiros ou claros e bem definidos. Conhecer o seu cão e como ele particularmente se expressa é fundamental. Outro ponto importante diz respeito a avaliar a situação como um todo, todo o contexto em que cada expressão é oferecida. Um mesmo sinal pode dizer coisas diferentes, dependendo da situação, do momento.

Os principais sinais apresentados por cães, são:

  • Girar a cabeça (num movimento rápido ou bem definido e duradouro), normalmente, significa que o cão te pede, ou a outro cão, que se acalme e diminua a intensidade da interação. É possível realizar uma variação desse movimento só com os olhos. Sabe aquela “cara de culpa” que muitos tutores filmam seus cães fazendo? Virar a cabeça quando o tutor dá uma bronca não quer dizer que o cão sabe que fez coisa errada. Ele não sabe! Ele só está tentando dizer: “Por favor, se acalme!”  Podemos experimentar, nós humanos, girarmos a nossa cabeça para nosso cão quando queremos dizer o mesmo a ele. Tente e me conte!

cachorro virando a cabeça

  • Dar as costas pode significar o pedido de diminuição da interação, assim como girar a cabeça. Mas, pode também, apaziguar quando o interlocutor (humano ou não) demonstre um comportamento ameaçador. Esse é um sinal que particularmente utilizo muito quando quero mostrar a um cão que pular em mim não será recompensado.

bulldogue lambendo focinho

  • Lamber o focinho (licking) num movimento, muitas vezes, tão rápido que precisamos treino para perceber ou mesmo mais devagar, porém repetidas vezes é, também, um sinal de calma. Demonstra que o cão está desconfortável com a situação que se apresenta.
  • Imobilizar-se, paralisar completamente, em pé, sentado ou deitado, ou em posição de brincar (quando não está convidando ninguém à brincadeira), andar devagar, em movimentos lentos ou sentar-se quando algo ameaçador se aproxima. Pode ser outro cão ou outro animal maior, ou mesmo algo que o cão não conheça, como um veículo, por exemplo. Quem nunca presenciou algum cão empacado na rua, enquanto seu tutor tenta a todo custo fazer com que ele ande, puxando sua guia?
  • Deitar-se de costas ou de lado com a barriga exposta (alpha roll) demonstra segurança e quer dizer ao interlocutor que o cão não representa uma ameaça. Ou ainda pode transmitir a mensagem de que a interação, brincadeira, precisa cessar. Aqui, cabe lembrar que essa leitura é de quando o cão oferece o sinal, voluntariamente.

sinais de calma ou de apaziguamento

  • Bocejar é algo que os cães fazem quando estão desconfortáveis com a situação. Percebo nitidamente quando Aramis boceja, por exemplo, ao esperar que ele se sente para eu libera-lo a sair pela porta. Mesmo sabendo que precisa sentar, e que essa é a escolha certa a se fazer, ele demonstra a contrariedade em precisar conter sua ansiedade.
  • Abanar a cauda nem sempre demonstra alegria, pode complementar um outro sinal como, andar devagar para acalmar uma situação, como se pedisse paz! Assim com farejar, lamber a boca do outro cão, levantar a pata, abaixa-se para parecer menor também são maneiras que os cães têm de se acalmar e/ou de acalmarem o outro com quem se comunicam.

Os cães se expressam de muitas outras maneiras. E muitas outras expressões não são de apaziguamento. Ao contrário, podem indicar o interesse em ameaçar, demonstrar força. Estudar sobre comportamento da espécie que trazemos pro nosso convívio é, certamente, a melhor maneira de estabelecer uma comunicação que faça sentido, para ambos e que, por consequência, cumpra o seu propósito.

Observe seu cão nas suas interações, nas interações deles com outros cães, outros animais de espécies diferentes, em ambientes diferentes…enfim, conheça seu cão e avalie SEMPRE o contexto!

*Ruggas, Turid. Os Sinais de Calma, 2011 (edição em língua portuguesa).

¹Ryan, Terry. Introdução ‘Os Sinais de Calma’, p.13, 2011.

²Goodmann, Pat.  ‘Os Sinais de Calma’, p.21, 2011.

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